“Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”. Esta é a mensagem de boas vindas, repetida até à exaustão, na estação de Metropolitano de Lisboa do Marquês de Pombal, depois dos arranjos na linha! De soslaio, um macavenco, pragueja o mesmo número de vezes. Praguejaria da mesma forma se não houvesse aviso, certamente!
“Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”. Dou por mim a cair em pensamentos aturdidos: e se não houvesse comboio? E se não houvesse cais? Bom… o ideal é não haver intervalo. Uma coisa é certa, não havendo intervalo não há ruído. Essa é que é essa!
“Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”. Entro na linha azul, na direcção de Santa Apolónia, rumo ao meu primeiro dia de trabalho depois das férias, com o espírito de quem vai para Dachau e ainda com aqueles zumbidos abrasivos, colados aos ouvidos.
Em pensamentos ousados, viajo até Montargil. Em pensamentos arriscados, disserto sobre a falta que faz uma gravação destas, a avisar para os perigos decorrentes de um passeio vespertino, às obras no Laranjal. Obras que, diga-se em abono da verdade, estão a fazer as maiores mudanças de que há memória, à face da nossa terra. Nem no século passado, quando os International, os John Deere, os Ferguson e companhia invadiram de arados o Laranjal, se viam tamanhas romarias ao santuário! Parece que já estou eu a ouvir em fundo, a cega-rega a agoirar as maleitas emergentes, um torcicolo, uma dor de cotovelo, ou uma simples brotoeja provocada por incúria de lagarta caída de pinheiro!
E se não houvesse campo de futebol? E se não houvesse anfiteatro? E se não houvesse parque infantil? O que (não) seria de falatório!? O ideal é haver isto tudo, incluindo a maledicência. Nem graça tinha, se assim não fosse!
Seguramente que Taveira Pinto, com ou sem transferências do poder central, ficará na história recente da nossa terra, como o autarca que mais saudades deixará em Montargil.
“Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”.
E de maneira que é assim!...
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Nuno Miguel Prates - Setembro de 2011
Rambóia - O Postigo das Mangações

