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"ISTO É QUE VAI AQUI UMA LIORNA"
Provavelmente, em Valongo, Avis, não há um único sapateiro. Mas na zona metropolitana de Lisboa, há um sapateiro que é de Valongo, Avis. Um pelo menos. Isso é certo. É meu vizinho e gosta de pescar carpas na Barragem de Montargil.
O ano passado dei-lhe um calendário da Junta de Freguesia de Montargil que eu gosto de ver escarrapachado, paredes meias, com um daqueles dizeres que avisa até o freguês mais incauto, «Cliente educado, não cospe no chão, não pede fiado, não diz palavrão».
Este ano, o remendão, como não via jeitos de nada, queixou-se-me da falta que faz um calendário com as luas. Meti os pés ao caminho e até ao sapateiro, dou por mim a ouvir um berreiro. Na telefonia do carro há uma polémica sobre, se em nome da poupança, a água bebida no parlamento, deveria ser engarrafada ou da torneira. Dizem os entendidos na matéria que fica mais barato beber água engarrafada. Motivo nº1: poupam-se ordenados em mão de obra necessária para encher copos, jarros e jarrões de água. Está tudo raso. Bebam água da barragem que há lá muita, mesmo sem chover, já está cheia, diz o sapateiro indignado, que também estava a ouvir a Antena1. Acrescenta constatando: vocês em Montargil também são azarados. Em pouco tempo dois hotéis abertos, dois hotéis fechados. Eu fiz de conta que não percebi. Estava com pressa. Entreguei-lhe o calendário e pirei-me, sob um pranto descontrolado da minha filha que estava deliciada a ver o homem a coser uma pochete. Já em fundo, ainda tive tempo de ouvir o mestre vociferar “ponham os olhos nos pescadores de Caxinas, esfarrapados e com fome mas desprendidos, a cantar o hino nacional”. Que melhor lição este povo nos poderia dar?
Da última vez que tinha vindo ao sapateiro, o locutor da rádio pública veiculava as lamentações do Aníbal sobre, a dificuldade cada vez maior em comprar os gormitys aos seus netinhos e em liquidar as contas do cabeleireiro da sua Maria. Um horror!...
O prego do salto da bota que esculpia a minha revolta no calcanhar, fez-me lá voltar, não sem antes perceber a deslealdade de um outro mártir, também ele vítima da incompreensão do povo. Das duas, uma: ou mudo de botas ou de sapateiro. Já não os posso ouvir.
E de maneira que é assim!...





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