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Prosas

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Nuno Miguel Prates - O Postigo das Mangações

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"ISTO É QUE VAI AQUI UMA LIORNA"

Provavelmente, em Valongo, Avis, não há um único sapateiro. Mas na zona metropolitana de Lisboa, há um sapateiro que é de Valongo, Avis. Um pelo menos. Isso é certo. É meu vizinho e gosta de pescar carpas na Barragem de Montargil. 

 

O ano passado dei-lhe um calendário da Junta de Freguesia de Montargil que eu gosto de ver escarrapachado, paredes meias, com um daqueles dizeres que avisa até o freguês mais incauto, «Cliente educado, não cospe no chão, não pede fiado, não diz palavrão».

 

Este ano, o remendão, como não via jeitos de nada, queixou-se-me da falta que faz um calendário com as luas. Meti os pés ao caminho e até ao sapateiro, dou por mim a ouvir um berreiro. Na telefonia do carro há uma polémica sobre, se em nome da poupança, a água bebida no parlamento, deveria ser engarrafada ou da torneira. Dizem os entendidos na matéria que fica mais barato beber água engarrafada. Motivo nº1: poupam-se ordenados em mão de obra necessária para encher copos, jarros e jarrões de água. Está tudo raso. Bebam água da barragem que há lá muita, mesmo sem chover, já está cheia, diz o sapateiro indignado, que também estava a ouvir a Antena1. Acrescenta constatando: vocês em Montargil também são azarados. Em pouco tempo dois hotéis abertos, dois hotéis fechados. Eu fiz de conta que não percebi. Estava com pressa. Entreguei-lhe o calendário e pirei-me, sob um pranto descontrolado da minha filha que estava deliciada a ver o homem a coser uma pochete. Já em fundo, ainda tive tempo de ouvir o mestre vociferar “ponham os olhos nos pescadores de Caxinas, esfarrapados e com fome mas desprendidos, a cantar o hino nacional”. Que melhor lição este povo nos poderia dar?

 

Da última vez que tinha vindo ao sapateiro, o locutor da rádio pública veiculava as lamentações do Aníbal sobre, a dificuldade cada vez maior em comprar os gormitys aos seus netinhos e em liquidar as contas do cabeleireiro da sua Maria. Um horror!...

 

O prego do salto da bota que esculpia a minha revolta no calcanhar, fez-me lá voltar, não sem antes perceber a deslealdade de um outro mártir, também ele vítima da incompreensão do povo. Das duas, uma: ou mudo de botas ou de sapateiro. Já não os posso ouvir. 

 

E de maneira que é assim!...

Nuno Miguel Prates - O Postigo das Mangações

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Provavelmente, em Valongo, Avis, não há um único sapateiro. Mas na zona metropolitana de Lisboa, há um sapateiro que é de Valongo, Avis. Um pelo menos. Isso é certo. É meu vizinho e gosta de pescar carpas na Barragem de Montargil. 

 

O ano passado dei-lhe um calendário da Junta de Freguesia de Montargil que eu gosto de ver escarrapachado, paredes meias, com um daqueles dizeres que avisa até o freguês mais incauto, «Cliente educado, não cospe no chão, não pede fiado, não diz palavrão».

 

Este ano, o remendão, como não via jeitos de nada, queixou-se-me da falta que faz um calendário com as luas. Meti os pés ao caminho e até ao sapateiro, dou por mim a ouvir um berreiro. Na telefonia do carro há uma polémica sobre, se em nome da poupança, a água bebida no parlamento, deveria ser engarrafada ou da torneira. Dizem os entendidos na matéria que fica mais barato beber água engarrafada. Motivo nº1: poupam-se ordenados em mão de obra necessária para encher copos, jarros e jarrões de água. Está tudo raso. Bebam água da barragem que há lá muita, mesmo sem chover, já está cheia, diz o sapateiro indignado, que também estava a ouvir a Antena1. Acrescenta constatando: vocês em Montargil também são azarados. Em pouco tempo dois hotéis abertos, dois hotéis fechados. Eu fiz de conta que não percebi. Estava com pressa. Entreguei-lhe o calendário e pirei-me, sob um pranto descontrolado da minha filha que estava deliciada a ver o homem a coser uma pochete. Já em fundo, ainda tive tempo de ouvir o mestre vociferar “ponham os olhos nos pescadores de Caxinas, esfarrapados e com fome mas desprendidos, a cantar o hino nacional”. Que melhor lição este povo nos poderia dar?

 

Da última vez que tinha vindo ao sapateiro, o locutor da rádio pública veiculava as lamentações do Aníbal sobre, a dificuldade cada vez maior em comprar os gormitys aos seus netinhos e em liquidar as contas do cabeleireiro da sua Maria. Um horror!...

 

O prego do salto da bota que esculpia a minha revolta no calcanhar, fez-me lá voltar, não sem antes perceber a deslealdade de um outro mártir, também ele vítima da incompreensão do povo. Das duas, uma: ou mudo de botas ou de sapateiro. Já não os posso ouvir. 

 

E de maneira que é assim!...

Café com Letras - Tema: O Suicídio

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No dia 19 de Novembro, às 17h30, no Café "A Montra", em Montargil, conversa sob a forma de tertúlia pública que versará sobre um dos problemas das comunidades, especialmente nas mais vulneráveis aos problemas da crise económica em situações geográficas de interioridade: o Suicídio.

Apresentação a cargo do Dr.Luis Godinho, com Mestrado e experiência profissional na área da prevenção do Suicídio.

 

O Postigo das Mangações - Um Pranto Daqueles

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«Furtiva Lágrima, a “Poção do Amor” de Nuno Ataíde».

É este o título de apresentação escolhido pelo Jornal Público de 29 de Outubro de 2011 para a Secção Vinhos do Suplemento Fugas. Um néctar de 2007 com a chancela do Monte da Raposinha.

Estava longe de imaginar o saudoso dr. Pedro Sousa que a Raposinha, petit nom dado à sua filha, poria um dia a Herdade de S. Martinho nas bocas do mundo e logo pelos melhores motivos. Prémio Produtor Revelação do Ano é escalpelizado e degustado nas melhores revistas da especialidade. Continua. «Em 2004, o casal Maria do Rosário e Nuno Ataíde não resistiu à ideia romântica de ter o seu “quintalzinho” no campo e seguiu os mesmos passos de muita gente com boa situação profissional e financeira: residentes em Coimbra, começaram a plantar uma vinha perto da barragem
de Montargil, em Ponte de Sôr, no Alentejo para produzirem o seu próprio vinho».

No mesmo fim-de-semana, um cartaz bem sugestivo surpreende-nos a todo o gás ao anunciar a letras garrafais uma prova de Jet Sky em Ponte de Sôr, na barragem de Montargil, com a ponte sobre o rio com o mesmo nome, em fundo. Afinal quem é que anda a colar cartazes?

Quinze dias antes, o diário recordista de vendas em Portugal, dirigido pelo nosso distinto conterrâneo Octávio Ribeiro, anunciava o segundo lugar no pódio da Escola Básica Integrada de Montargil, no ranking das escolas do Distrito de Portalegre, logo atrás do Colégio Luso-Britânico e à frente de 3 escolas de Portalegre, 3 de Ponte de Sôr, 3 de Elvas, 1 de Campo Maior, Avis, Gavião, Nisa, Crato, Monforte, Fronteira, Arronches, Sousel, etc.

Um fim-de-semana depois, eu - e quero acreditar que a maior parte dos montargilenses a residir e a trabalhar fora -, comentei com alguém que ia a Montargil. Grande parte dos meus colegas de trabalho, vai à terra. Porque será? Será que a terra tem nome?

Numa ocasião, alguém que me irrita solenemente, ousou perguntar-me se não ia à terra e eu, não sei se mais desembaraçado que irritado, retorqui: não, este fim-de-semana vou à lua. Aluado! Deve ter pensado a mulher!?...

E de maneira que é assim!...

Rambóia - O Postigo das Mangações

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“Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”. Esta é a mensagem de boas vindas, repetida até à exaustão, na estação de Metropolitano de Lisboa do Marquês de Pombal, depois dos arranjos na linha! De soslaio, um macavenco, pragueja o mesmo número de vezes. Praguejaria da mesma forma se não houvesse aviso, certamente! 

“Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”. Dou por mim a cair em pensamentos aturdidos: e se não houvesse comboio? E se não houvesse cais? Bom… o ideal é não haver intervalo. Uma coisa é certa, não havendo intervalo não há ruído. Essa é que é essa!

“Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”. Entro na linha azul, na direcção de Santa Apolónia, rumo ao meu primeiro dia de trabalho depois das férias, com o espírito de quem vai para Dachau e ainda com aqueles zumbidos abrasivos, colados aos ouvidos. 

Em pensamentos ousados, viajo até Montargil. Em pensamentos arriscados, disserto sobre a falta que faz uma gravação destas, a avisar para os perigos decorrentes de um passeio vespertino, às obras no Laranjal. Obras que, diga-se em abono da verdade, estão a fazer as maiores mudanças de que há memória, à face da nossa terra. Nem no século passado, quando os International, os John Deere, os Ferguson e companhia invadiram de arados o Laranjal, se viam tamanhas romarias ao santuário! Parece que já estou eu a ouvir em fundo, a cega-rega a agoirar as maleitas emergentes, um torcicolo, uma dor de cotovelo, ou uma simples brotoeja provocada por incúria de lagarta caída de pinheiro! 

E se não houvesse campo de futebol? E se não houvesse anfiteatro? E se não houvesse parque infantil? O que (não) seria de falatório!? O ideal é haver isto tudo, incluindo a maledicência. Nem graça tinha, se assim não fosse!

Seguramente que Taveira Pinto, com ou sem transferências do poder central, ficará na história recente da nossa terra, como o autarca que mais saudades deixará em Montargil. 

“Atenção ao intervalo entre o cais e o comboio”. 

E de maneira que é assim!...

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Nuno Miguel Prates - Setembro de 2011

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